Eu quero a palavra sutil que se infiltre lenta na superfície dos teus cabelos negros,
que te penetre os olhos e os ouvidos e depois, mais rapidamente, avance sobre a tua alma,
depois o fígado, o pâncreas e todos os demais órgãos vitais – quiçá até o coração -
para só então te tocar a mente, mas só então, tão e somente.

1 de agosto de 2015

planos ao olhar de adeus


quando me deixar, 
procurarei outros vícios para substituir o seu

quando me deixar,
buscarei outra causa para amar como a você

quando me deixar,
descobrirei outro mal por que me desfazer

quando me deixar,
chegarei a encontrar outros corpos para alisar
quem sabe até olhos para me aquecer
e braços para confortar

no coração,
tudo isso se há de se acomodar
no pouco de espaço que sobra ao redor do rombo

esse rombo tem teu tamanho,
formato, cor, cheiro, assinatura

esse rombo estranho,
ternura,
é o que restará desse coração
quando me deixar


julho


há muito tempo,
te inventei pra dar cara limpa aos meus vícios
ao que te desfazes
sou obrigada a olhar a vida novamente na cara
e tremo só de pensar
nas mil coisas que hei de descobrir
do lado de fora do teu abraço

ai

essa dor gigante de coisa se partindo
não é bonita quando é a gente
não dá orgulho
não vira poema
é dor pura bruta barata
nao é dor de cinema

não tem final
feliz

6 de julho de 2015

( )


tudo em você me dói
teu medo (contra meu desprendimento)
tuas dúvidas (contra minhas certezas)
tuas respostas curtas (e meus testamentos)
tua mania de desaparecer (e a minha, de insistir)
tuas não-perguntas (e os meus excessos)
tuas perguntas em excesso (e os meus silêncios)
teus presentes zombeteiros (e os meus, utilitários)
a gaveta pra tuas roupas (que nunca reservei)
a escova de dente mal usada (que usei pra limpeza)
as molduras das tuas fotos (que nunca imprimi)
o travesseiro onde descansarias a cabeça após fazer amor comigo (mas não te deixo dormir)

tudo. é
tudo em você. é (em mim)
tudo dói


5 de fevereiro de 2015

Ariaguaguiar


Branco sempre detestei esse branco mas é tudo o que há camadas e mais camadas de branco vazio tédio praga sempre odiei essa cor de nada que agoniza ai que agonia fala ai sei lá mas espera tem uma alguma coisa esse branco nem parece removo a camada água? Quebrei o branco pensei mas como é possível quebrar o que não se diz? Tinha barulho de risada fazia cócegas na pele na alma e eu não sabia se ria e bebia e me rendia e enlouquecia ao encanto da água ou se fazia exatamente o oposto e saía correndo na direção contrária gritava chorava voltava pro branco morria qualquer coisa assim diária e o desespero ali o desespero não cessava eu parecia feito estátua branca oca parada mórbida mão estendida daquela maneira estúpida na direção da água sem me tocar tocava, e lia os pensamentos, entendia as inquietações. Qual foi meu espanto quando ao abrir a boca à fala, me invadiu a boca a água, fria engraçada quente, esquentou, acalentou, calou. Meu. Envolveu. Deu. Paz? Era paz? Ou era. Doce? Lento. Rouco. Água & ar. Louco. Até o branco virou. Pouco. Pouco diante daquele. Louco. Não largava mais minha. Boca. Louca. Nem eu sabe mais o quem eustou. Dois & um.

28 de dezembro de 2014

Afiada


Imagem-navalha. Não perdoa a memória que quer dormir. Quantas centenas de noites dormentes a mais serão necessárias para que se torne menos alucinante? Quantos quilos de [insira aqui o nome do seu entorpecente favorito] a mais serão necessários para enterrar essa grande dor? Mas enterrar supera? E superar melhora? E se melhorar não estraga? Corta, navalha, corta. Me mata de qualquer coisa ilusória. Eu não quero sentir.

27 de dezembro de 2014

A menina transa


quando eu cheguei tudo estava virado
o avesso dela derramado
no canto do quarto
que era palco da mina
que gemia, gemia, gemia
virava os olhinhos
não importa a dança
a menina transa
ela resiste tiro porrada bomba finge que é santa mas gosta é da mão naquele lugar e não sossega o peso do sutiã da calcinha da missa da festinha da casa da tia ela só quer ela só pensa ela só
a menina transa
revoluciona

Cantinho


você,
seu jeitinho brando
abranda o afoito desse meu andar 
eu,
só pra admirar
guardei um quadradinho sem bagunça pro meu bem 
vem,
pode vir, meu bem
arrumei um cantinho da gaveta pra você
um cantinho sem poeira
uma notinha no caderno
um desleixo da memória
um hiato na história
uma desculpa na insônia 
pra você

25 de agosto de 2013

Arte que morre


     Partindo dos meus olhos, reflexo. Atrás do reflexo, vidro. Atrás do vidro, um poste. Atrás do poste, fio. Atrás do fio, janela - sem vidro. Atrás da janela, a senhora. Atrás da senhora, vazio.
    Apareceu-me como obra de arte, emoldurada pelas extremidades retangulares do balcão em que apoiava o seu cansaço secular. Tinha a pele e os olhos cinzas como o céu, como o sobrado, como os fios de telefone que ligavam os postes e cortavam sua bela imagem, violentamente. Ainda assim, violada, mais parecia pintura, dessas raras, que não basta contemplar. E de repente me deu uma vontade enorme de cutucar qualquer um a minha volta, apontar para ela pela janela entreaberta e dizer olha, olha, olha só que coisa mais absolutamente bela e triste. Mas não apontei para ninguém. Apenas continuei olhando para ela, e por um segundo pude jurar que também a vira repousar os olhos sobre os meus, dentro dos meus, como que deixando-lhes morrer um pouquinho mais lá. Sua boca parecia se mexer, contrastando com seu olhar fixo; balbuciava palavras que eu não compreendia, que não poderia compreender, me fazendo sentir queimar no fundo do peito uma vontade crescente, não, uma necessidade crescente e absurda de gritar para, de descer imediatamente do ônibus, de atropelar pessoas, carros, postes, fios e tudo mais que se pusesse no meu caminho, de atravessar correndo aquelas ruas cinzentas e frias e abraçar longamente, eternamente aquela triste figura, tentar colorir de alguma forma o conteúdo cinzento daquela moldura, ou talvez apenas chorar, chorar, chorar o resto da vida pelo fato de não poder ouvi-la, de não saber decifrá-la e de vê-la desaparecer assim, em menos de um piscar de olhos. Porque mal começara a sentir o germe do desconforto a se anunciar no estômago, mal a senhora repousara seu olhar fundo, dolorosamente fundo dentro dos meus olhos, mal começara a abrir a boca para dizer-me tanta coisa importante que eu estava fadada a desconhecer, o sinal já havia aberto, o ônibus já se movera, e a sua imagem tão bela, obra de arte tão rara, como se fosse um nada, já se dissipara.
     E então.
     Então, nunca mais.

Sempre começo


Olho o espelho,
Não me conheço
Então percebo:
Sou só começo

1 de abril de 2013

Sobre todo hiato


    Há tanto não escrevo, que já não me conheço. De que consistirá hoje este ser a cuspir palavras displicentes sobre uma tela há muito desgastada? Será uma fera, embelezada pelo clamor dos poetas, a suspirar pelas estrelas, e que no fundo é só mesmo tristeza, mágoa e lamentação? Ou então uma princesa, a proteger-se dos espinhos e das rocas, dos sussurros da aurora, maus agouros passados? Ou apenas um fado, destino cruel consolidado qual fosse a vida, um palco, verossímil, relapso e, ainda assim, sensível ao toque, ao passo?
     Ah, já não sei dizer. Cada farpa tocada foi me deixando assim, mutilada, mortificada, mutada. E se hoje não defino quem, como ou quando sou, como explicar esse ardor no fundo no peito de coisa inacabada chegando a um fim desordenado, desorientado, desorganestrambelhado de consequências mil? Talvez por isso não escrevesse, tomada pelo medo de certos consentimentos certos. Mas alguma coisa em mim ainda se recordava de que o que é dor sempre dói, exposto, descrito e dissecado, ou não, e que escrever não é nada além de mergulhar um pouco mais fundo naquilo que já existia e feria. Pode te fazer sangrar, gritar e sentir-se mais perto da morte, mas, afinal, já não sangraria, gritaria e assim se sentiria de qualquer modo? Quem tem furos sabe que o fundo do poço não existe para certos alguens. Por isso, melhor mesmo é despejar no papel as caraminholas da cabeça, que, lá dentro, são tão, tão feias. Tornam-se bonitas, como as borboletas - nem se ressentem das lagartas.
     Assim também sou eu, que criando fins ilusórios para uma estrada inacabada, já não me ressinto de nada  - pronta e prestes a bater asas. Só me resta saber para onde partir.