Eu quero a palavra sutil que se infiltre lenta na superfície dos teus cabelos negros,
que te penetre os olhos e os ouvidos e depois, mais rapidamente, avance sobre a tua alma,
depois o fígado, o pâncreas e todos os demais órgãos vitais – quiçá até o coração -
para só então te tocar a mente, mas só então, tão e somente.

2 de março de 2010

Agora.


Eu acorda todo dia. Acordou hoje, ontem, eu tem acordado todo dia, até agora. E agora. Muito embora do próximo nada se saiba, até agora. Ou agora. Eu agora todo dia, agora todo dia até agora, e agora, embora... Pra fora. Eu deseja ir pra fora. Pra estar em certo lugar no momento certo, não vê hora. Por em certo momento não ter podido estar naquele tal certo lugar na certa hora, eu quer estar fora. Quer estar de fora, eu, só por tentar, só pra ver como é de lá, do lado de fora, agora. Eu, fora de eu, diria, em gesto mudo, surdo, profundo, "também", pois não seria eu, seria qualquer pessoa qualquer, qualquer outro um de fora, qualquer toda coisa que não eu, eu que não disse "também", que nunca esteve em certo lugar no momento certo agora, que deseja ir pra fora. Eu deseja ir pra fora. Agora.